quinta-feira, 24 de novembro de 2022

RIO DE ONOR - PORTUGAL 2021, a aldeia cuja fronteira nem Salazar nem Franco conseguiram estabelecer…

     Rio de Onor é uma aldeia raiana que fica nos confins da Serra de Montesinho, no distrito de Bragança.


    "Afinal de contas, onde está a fronteira? Como se chama este país, aqui? Ainda é Portugal? Já é Espanha? Ou é só Rio de Onor, e nada mais do que isso?", escreveu um dia José Saramago no seu livro Viagem a Portugal. A resposta é simples: Rio de Onor estende-se por dois países: do lado espanhol, Rihonor de Castilla, do lado português, Rio de Onor. Dois nomes, dois países, mas a realidade encarregou-se de extinguir a fronteira. Para os habitantes de Rio de Onor é como se as duas aldeias fossem uma só. "Sim senhor. A gente até tem terras do lado de lá." Confunde-se o viajante com esta imprecisão de espaço e propriedade, e torna a ficar confundido quando outra velha menos velha acrescenta tranquilamente: "E eles também têm terras do lado de cá.", in Viagem a Portugal.







    Rio de Onor é uma aldeia muito peculiar, uma aldeia onde o comunitarismo impera e fortalece a sua identidade, uma aldeia que vive num verdadeiro espírito de entreajuda. As populações de ambos os países possuem muitas vezes terras do outro lado da fronteira e trabalham-nas como se fossem do seu lado. Partilham um pasto comunitário, um forno, um moinho, uma forja e, em tempos de outrora, um touro!



    Deambular pelas ruas estreitas e empedradas da aldeia é maravilhar-se com um tempo onde há tempo para tudo e encantar-se com as suas casas, feitas com pedra de xisto e telhados em lousa e com varandas ou alpendres de madeira. 









    As casas têm dois pisos: em cima habita a família, em baixo guardam-se os animais e os cereais. Em muitas delas, destaca-se uma fechadura muito rudimentar, o caravelho. Com vários feitios, este instrumento serve para fechar as portas das lojas e currais e só é possível em aldeias onde a confiança existe, dado que são muito fáceis de abrir. 












    Numa destas casas, há cerca de quarenta anos, esteve José Saramago, quando percorria o país para poder escrever a obra Viagem a Portugal. Conversou com um casal, Daniel São Romão e sua mulher, que possuíam um alambique. Bebeu um bagaço, tirou-lhes uma fotografia, que mais tarde lhes enviou. Também nesta casa, em dezembro de 2021, havia um dos presépios mais ternurentos e comoventes!  Numa altura em que o mundo escondia os rostos atrás de máscaras, a mensagem do presépio era esta: "Jesus, devolve-nos o sorriso. Obrigado!"



    Nesta aldeia, cuja fronteira nem Salazar nem Franco conseguiram estabelecer, é possível visitar um espaço museológico dedicado à história e à cultura de Rio de Onor, a Casa do Touro.  A denominação deste espaço prende-se com o facto de, antigamente, este ser o edifício que acolhia o touro comunitário da aldeia.


    Na aldeia, há uma igreja, também de xisto, e uma ponte romana.



    Vale a pena visitar Rio de Onor!

    Lugar visitado a 27 de dezembro de 2021.

 



sexta-feira, 18 de novembro de 2022

LAVRE - PORTUGAL 2021, a vila dos "Levantados do Chão"…

  Lavre é uma vila portuguesa do concelho de Montemor-o-Novo, na região do Alentejo.

    "Do chão sabemos que se levantam as searas e as árvores, levantam-se os animais que correm os campos ou voam por cima deles, levantam-se os homens e as suas esperanças. Também do chão pode levantar-se um livro, como uma espiga de trigo ou uma flor brava. Ou uma ave. Ou uma bandeira. Enfim, cá estou eu outra vez a sonhar. Como os Homens a quem me dirijo." José Saramago, in Levantado do Chão


    Foi na vila de Lavre que, no auge da Reforma Agrária, em 1977, viveu, algum tempo, o Nobel da Literatura Portuguesa, para se documentar e se inteirar das condições miseráveis em que viviam os trabalhadores. Foi no Lavre que José Saramago conheceu o Alentejo profundo. Foi no Lavre que se instalou para ouvir e contar por escrito as histórias das greves dos trabalhadores rurais dos anos 40 do século XX, quando as convocatórias eram entregues durante a noite por gente que vinha de bicicleta com as luzes apagadas. Foi no Lavre que encontrou inspiração para escrever a magnífica obra Levantado do Chão



    Saramago viveu num quarto cuja janela ficava mesmo por cima da porta por onde se entrava para a extinta  Cooperativa de Consumo Vento do Leste. Na época, nesse edifício moravam diversos trabalhadores da UCP - "Unidade Coletiva de Produção Boa Esperança" do Lavre.




    Para quem gosta da Literatura do Nobel Português, vale a pena visitar o Lavre e ficar alojado na Casa do Lavre, a casa de Maria Saraiva, e conversar com a filha, a D. Alcina, que conta histórias incríveis! Maria Saraiva, a dona da mercearia que tanta fome saciou em tempos de miséria, foi quem inspirou José Saramago na criação de "Maria Graniza", na obra Levantado do Chão, uma obra-prima.




    Estar no Lavre é percorrer as suas ruas estreitas e encontrar a rua e a casa dos "Mau-Tempo", do João Mau-Tempo, o alentejano que foi torturado na prisão do Aljube, e a casa de Mariana Amália e de João Basuga, onde Saramago almoçava diariamente. Mariana Amália esteve prestes a passar da vida prática para as páginas da literatura no livro Memorial do Convento. A personagem Blimunda esteve para se chamar Mariana Amália, tal era o carinho que Saramago nutria por esta mulher que o acolheu.




      Estar no Lavre é saborear o tempo que, na maioria das vezes, passa por nós sem o aproveitarmos.

Lugar visitado a 11 de agosto de 2021.

sábado, 12 de novembro de 2022

NANTES - FRANÇA 2022, a cidade daquela que foi duas vezes rainha de França…

Nantes é uma cidade francesa, na região da Alta Bretanha, que fica nas margens do rio Loire.

    Um monumento emblemático da cidade é o Castelo dos Duques da Bretanha (Château des Ducs de Bretagne). Construído por François II, o último duque da Bretanha, e após a morte deste, pela sua filha Ana da Bretanha, rainha duas vezes da França, o castelo, com fachadas brancas de calcário, é uma mistura entre o estilo gótico flamboyant e o renascentista. 










    Foi nesta magnífica residência ducal que nasceu a duquesa Ana da Bretanha e que Henri IV assinou o Édito de Nantes, autorizando os protestantes a praticar a sua religião livremente. 
  Este "Château" alberga, no seu interior, o Museu de História de Nantes. Com efeito, o interior é dedicado à história de Nantes, às relações entre Nantes e a Bretanha, ao comércio de escravos, ou ainda à história da indústria da cidade.









    Junto do Château, encontra-se a estátua de Ana, duquesa da Bretanha e rainha duas vezes de França.



  Outro monumento imponente é a Catedral de Nantes, também conhecida como Catedral de São Pedro e São Paulo de Nantes (Cathédrale Saint-Pierre-et-Saint-Paul), um belíssimo edifício da cidade. De estilo gótico, as suas duas torres brancas icónicas destacam-se entre os telhados vermelhos da cidade.








    Para se ter uma perceção do centro histórico, vale a pena apanhar o comboio turístico junto à Catedral e fazer um "tour" pela cidade. Desta forma, é possível vislumbrar o Hôtel de Ville, o Palácio Derval, a Torre da Bretanha, a Basílica de São Nicolau, a Praça Real, bombardeada em 1943, a entrada da Passage Pommeraye, a Praça Graslin e o Teatro, o parque temático "Les Machines de Île" (Les Machines de Jules Verne), o Espelho de Água e a antiga porta da cidade...
























    Outro ícone da cidade de Júlio Verne é a antiga e famosa fábrica de bolachas, a Fábrica LU, criada pela família Lefrève Utile. A partir de 2000, esta antiga fábrica tornou-se um espaço cultural denominado Lieu Unique.






    Antes de partir da cidade de Nantes, é imprescindível provar uma galette du blé noir, típica da Bretanha, e também um crêpe au chocolat.


    Vale a pena conhecer Nantes!

    Lugar visitado a 7 de agosto de 2022.



AQUIS QUERQUENNIS - GALIZA - ESPANHA 2023, as ruínas romanas nas margens do Rio do Esquecimento…

     Nas margens do mítico rio Lethes - o rio do Esquecimento - ou Rio Limia, ou em português Rio Lima, Aquis Querquennis foi um important...