"Afinal
de contas, onde está a fronteira? Como se chama este país, aqui? Ainda é
Portugal? Já é Espanha? Ou é só Rio de Onor, e nada mais do que isso?",
escreveu um dia José Saramago no seu livro Viagem
a Portugal. A resposta é simples: Rio de Onor estende-se por dois países:
do lado espanhol, Rihonor de Castilla, do lado português, Rio de Onor. Dois
nomes, dois países, mas a realidade encarregou-se de extinguir a fronteira.
Para os habitantes de Rio de Onor é como se as duas aldeias fossem uma só.
"Sim senhor. A gente até tem terras do lado de lá." Confunde-se o viajante
com esta imprecisão de espaço e propriedade, e torna a ficar confundido quando
outra velha menos velha acrescenta tranquilamente: "E eles também têm terras do
lado de cá.", in Viagem a Portugal.
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Deambular pelas ruas estreitas e empedradas da aldeia é maravilhar-se com um tempo onde há tempo para tudo e encantar-se com as suas casas, feitas com pedra de xisto e telhados em lousa e com varandas ou alpendres de madeira.
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As casas têm dois pisos: em cima habita a família, em baixo guardam-se os animais e os cereais. Em muitas delas, destaca-se uma fechadura muito rudimentar, o caravelho. Com vários feitios, este instrumento serve para fechar as portas das lojas e currais e só é possível em aldeias onde a confiança existe, dado que são muito fáceis de abrir.
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Numa destas casas, há cerca de quarenta anos, esteve José
Saramago, quando percorria o país para poder escrever a obra Viagem a Portugal. Conversou com um
casal, Daniel São Romão e sua mulher, que possuíam um alambique. Bebeu um bagaço,
tirou-lhes uma fotografia, que mais tarde lhes enviou. Também nesta casa, em
dezembro de 2021, havia um dos presépios mais ternurentos e comoventes! Numa altura em que o mundo escondia os rostos
atrás de máscaras, a mensagem do presépio era esta: "Jesus, devolve-nos o
sorriso. Obrigado!"
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Nesta aldeia, cuja fronteira nem
Salazar nem Franco conseguiram estabelecer, é possível visitar um espaço
museológico dedicado à história e à cultura de Rio de Onor, a Casa do Touro. A
denominação deste espaço prende-se com o facto de, antigamente, este ser o
edifício que acolhia o touro comunitário da aldeia.
Na aldeia, há uma igreja, também de xisto, e uma ponte romana.
Vale a pena visitar Rio de
Onor!
Lugar visitado a 27 de
dezembro de 2021.
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